Poesia

Por Maurício de Oliveira

Sujaram as águas do Ipiranga

Cá entre nós Sujaram as águas do Ipiranga... Poluíram suas margens plácidas As fábricas esquizofrênicas e irracionais... A pátria amada mãe gentil Não é dos filhos que pariu É de poucos A pátria mãe gentil Da puta que pariu E diga ao verde-louro dessa flâmula Que somos negros, que somos mulatos Que somos reais Que somos o povo mestiço, com orgulho... O país é varonil, impávido colosso E o povo, rói o osso De um povo heroico o brado retumbante É só um grito ideal e belo, nas lajes pobres de concreto Diversas fomes, a fome é real A desigualdade é real A chantagem do capital é real.... No céu da pátria neste instante há mentiras Teu seio de liberdade deixou-se conquistar pelo capital transnacional.... E o sol da liberdade? Em raios fúlgidos? Qual nada... somos escravos da incompetência, escravos da corrupção Somos escravos do absurdo Idolatradas ilusões.... Idolatrados pães e circos e sexos.... Deitado eternamente em berço esplendido Berço esplendido e estéril... Dos filhos deste solo és mãe gentil De filhos submissos Sobre tuas asas de caos do capital feroz e impiedoso... Um golpe no meu peito nacional Salve salve! A poucocracia A prostitutocracia infantil absurda Salve salve! A luxocracia brilhando nas retinas de um povo carente Salve salve! A absurdocracia Salve salve! A mão de ferro maquinal em rostos bonitos e televisivos...   Terra amada, lembra de meus pés descalços? Terra amada, eu sei teu gosto e teu cheiro até hoje...... Terra adorada Onde resplandece a imagem do cruzeiro? Em quartos luxuosos, ou em barracos? Onde resplandece a imagem do cruzeiro? Nos olhos sedentos de teu povo?   Poluíram as margens do Ipiranga Enlouqueceu a pátria mãe gentil Emudeceu o brado retumbante Secaram os seios da liberdade A imagem do cruzeiro não resplandece, se esquece Impávido colosso esquelético Teu formoso céu risonho e límpido, e poluído, e distante...
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