Poesias
Versos, ritmos e expressões poéticas.
Não sei o que sou,Não sei a que venho ou a que vou,Por isso plagio o pensador,Porque trago a mesma dor no peito,E no fundo o mesmo amor.
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Se não existe o sagrado
Se não existe o sagradoO lobo não corre na tempestade, uivando no ventoSe não existe o sagradoO céu não tinge os olhares intrigados na noiteSe não existe o sagradoO luar não se derrama pelos trigais amarelosSe não existe o sagradoO silêncio nada inspira aos amantesSe não existe o sagradoNão há o frescor do orvalho sobre o cansaço da ciênciaSe não existe o sagradoA fúria do mar não nos deixa introspectivosSe não existe o sagradoO infinito não é misterioso e revela-se a qualquer toloSe não existe o sagradoNão há o desconhecidoE sem ele nada éPorque nada pode tornar-se.
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Sábado à noite
EncontrosLabiais....DesencontrosNormais...OlharesLetais...SeduçõesGestuais...Carícias...Animais...IlusõesGeniais...GestosSinais...SentidosIrracionais...MomentosRadicais...LábiosCarnais...MemóriasSensuais...PlanosMarginais...NoitesAncestrais...
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A noite da consciência
Um cão selvagem corre por minhas veiasNão é daqui, mas de outros temposVaga pelos milênios perdidos em meus sonhosSalta tantas montanhasE cruza tantos desertosQuanto a lua pode ver de seu silêncioNos uivos desse cão não há história nenhumaHá somente a vastidão, o espaço e o universo que se conhece por si mesmoMudo na noite intensa, sem que a consciência tenha explodido a admirá-loO cão selvagem nunca descansa,E sente o suor frio em sua pele quenteE luta ferozmente pelo prazer de correr o mundo inteiro selvagemSe é desafiado a sobreviver,Se é ameaçado por outros ferozes animaisNão há sonho que ele já não tenha vividoNão há um parto da natureza que se esconda deleNão há luta que não tenha travadoNão há território inabitado que ele não conheçaNão há noite que se livre de seu ganido distanteNão há ar glacial ou equatorial que não tenha sido respirado por seus pulmões ofegantesUm cão selvagem corre por minhas veias Ele é de outros temposE não é violento nem maldosoPorque em seu tempo não existe a maldadeNão é caridoso ou subservientePorque em seu tempo só há seres selvagens como eleNinguém sabe de onde ele veioOu se um dia irá de minha profundidadeEle sempre existiu e nunca morreráAdmirará a lua virgem de qualquer olhar humano, de cima de um monte sagradoConhecerá os raios de sol que nunca tocaram um só pensamentoUivará forte procurando sua companheira selvagem, porque é sua naturezaNão existem dúvidas nem certezas por seus caminhosSó existe a terra virgem e aberta a seus passosE a liberdade de não haver nenhum caminhoCerta vez ele viu uma fogueira em volta da qual homens das pedras cismavamDespreocupados do ontem e do amanhãEntreolhavam-se tão quietos quanto pode ser a pureza e a inocência da naturezaE o cão selvagem correu em direção a elesE ao tocá-los, mergulhou na história humana,E nada lhe foi olvidadoE quase cego pelo que viuE ansioso, ofegante, extenuadoEncontrou outra fogueira e outros homens ao redor delaCorreu desesperadamente ao seu encontroE pode retornar a seu tempoOnde não há tempo nenhumE salta de uma montanha a outra, forteE cruza os desertos,E é tão livre porque desconhece o que seja uma prisãoNuma feita experimentou o descansoDormindo num campo de mato orvalhado pela madrugadaFoi ai a única vez que eu quase o viQuando perdi a consciência de mim e de tudo ao redorMas me transformei nele e pude vagar pela noite desconhecidaE percorri as veias de um homem sem ser um homemVi explosões de pensamentos e memórias no horizonteSem saber o que significasse issoE corri livremente sem nenhum cansaço.Ás vezes quase o vejo.
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Aos jovens perdidos e guerreiros cansados
Aos soldados perdidos de longe de seus laresCravados à espinha pás e pedrasAo impetuoso atiradosSem fogueira que os elevePor dentro e por fora tímidosSentados ao chão imersosComo tintas à tela áridaDe um só traço indefinido desenhadosAo tear com fios de sangueÀ navalha presa nas nuvensNo horizonte vermelho crava-se o azulEm seus olhos penetradosCalemos nossa voz e nosso julgamentoOremos aos seus pais e suas mãesAbrindo o peito distantesA esses jovens atirados ao mundoBenzamos a eles suas vontadesDe voltar para casa e beijarSeus pequenos irmãos inocentes.
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Champagne à memória
Ainda vamos rir juntos de tudo isso... babyDos faróis bêbados de minhas mãos inseguras nos teus peitosDo meu desespero Fred Astaire sapateando no palcoDo lago sereno de teu olharDas palavras saltando de paraquedas de nossas bocasDe sonhar um filho, babyDa violência de tua belezaDe estar perdido no caos de seus braçosDe nossas pernas embaraçadasDo ver-te partir no horizonte enquanto eu agonizava tua despedidaAinda vamos rir juntos de tudo isso, baby...Pensando no nada, como os inocentes nas calçadas...
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Sujaram as águas do Ipiranga
Cá entre nósSujaram as águas do Ipiranga...Poluíram suas margens plácidas As fábricas esquizofrênicas e irracionais... A pátria amada mãe gentilNão é dos filhos que pariuÉ de poucosA pátria mãe gentilDa puta que pariuE diga ao verde-louro dessa flâmulaQue somos negros, que somos mulatosQue somos reaisQue somos o povo mestiço, com orgulho...O país é varonil, impávido colossoE o povo, rói o ossoDe um povo heroico o brado retumbanteÉ só um grito ideal e belo, nas lajes pobres de concretoDiversas fomes, a fome é realA desigualdade é realA chantagem do capital é real....No céu da pátria neste instante há mentirasTeu seio de liberdade deixou-se conquistar pelo capital transnacional....E o sol da liberdade? Em raios fúlgidos?Qual nada... somos escravos da incompetência, escravos da corrupçãoSomos escravos do absurdoIdolatradas ilusões....Idolatrados pães e circos e sexos....Deitado eternamente em berço esplendidoBerço esplendido e estéril...Dos filhos deste solo és mãe gentilDe filhos submissosSobre tuas asas de caos do capital feroz e impiedoso...Um golpe no meu peito nacionalSalve salve! A poucocraciaA prostitutocracia infantil absurdaSalve salve! A luxocracia brilhando nas retinas de um povo carenteSalve salve! A absurdocraciaSalve salve! A mão de ferro maquinal em rostos bonitos e televisivos... Terra amada, lembra de meus pés descalços?Terra amada, eu sei teu gosto e teu cheiro até hoje......Terra adoradaOnde resplandece a imagem do cruzeiro?Em quartos luxuosos, ou em barracos?Onde resplandece a imagem do cruzeiro?Nos olhos sedentos de teu povo? Poluíram as margens do IpirangaEnlouqueceu a pátria mãe gentilEmudeceu o brado retumbanteSecaram os seios da liberdadeA imagem do cruzeiro não resplandece, se esqueceImpávido colosso esqueléticoTeu formoso céu risonho e límpido, e poluído, e distante...
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Frenético
Beijo suicidaEspírito da tragédiaVênus dançanteHoje não sou o que você querSou o corpo do escravoO gozo do gênioFaraó de toalhas pornográficasVerbo bombásticoSemântica semiótica da loucuraOs nervos do guerreiro no último segundoNãoDefinitivamente não sou o que você querAmor sem perdãoUm tiro na noite escuraÁtomo ínfimo e infinitoSustento do universoFogo na galáxiaNudez dos corposVil metal nos dedos das prostitutasBizão forte que calca a lamaNãoHoje nãoHoje não sou o que você querPutas e esquizofrênicosSou muito mais elesdo que muita coisa que estou vendo!InsânoDeus virado no santoMais fogoOlhos no nevoeiroSilêncio abismanteTiro no peitoMedo dos marinheirosFuror da fúriaRisco no céuBeijo caóticoSolidão das noitesAmanhã é outro dia eAndarei reto e dócilMas dentro de mim há tudo isso.
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Não estou aqui, não estou em lugar nenhumNão sou agora, não estou em tempo algumEu sou apenas a memória que construí de mim mesmo.
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Língua
O artigoé fiel amigo do substantivoo pronomeé assim com o verboadjetivoalmao tal do adjuntoeu nunca entendi bemmas tem lá o seu sentidoo numeral me acumulaquantos beijos já te deilembra da velha casamenteira preposiçãoque o diabo foi vírgula da nossa separaçãoe depois somente mais algumas palavrasponto finalfim e recomeçoA língua é do povoSó do povomais de ninguéme é perfeitana boca dos humildes ela é ainda maisperfeitamente imperfeitae o poeta vai lá e erraDe propósito!
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Para os adolescentes
Aos sete anos você tinha pelo menos uma cicatriz de infânciaAos dez você já tinha um pequeno amor idealizado, desses de criançaAos treze uma espinha no rosto era o maior de seus problemasAos quinze, um desejo fervoroso era impossível de inexistir Aos vinte você terá algumas paixões perdidasAos vinte cinco terá abandonado pelo menos um emprego, terá fracassado em um plano, e se decepcionado com um grande sonhoAos trinta já haverá muitos desejos abandonadosAos trinta e cinco tentará viver sua juventude novamente, toda em um só diaAos quarenta já terá provado uma sua qualidade, e conhecerá suas forças e fraquezas, e terá também uma cicatriz nos sentimentos, profunda, muito profunda...Mas aos quarenta é que a mágica acontece: você já terá passado por uma dezena de situações de ridículo, e aceitará sua condição, por entender que não passar por alguns ridículos é impossível.Aos quarenta e cinco abandonará umas manias e adquirirá outrasAos cinquenta perdoará as pequenas irresponsabilidades dos jovens, até as engrandecerá, e terá algum orgulho de seus erros- a juventude é impetuosa -Aos cinquenta e cinco, se sobreviver à poluição, ao divórcio, às guerras sem fim, aos sempre mesmos e novos planos econômicos, à irritação com a política, no máximo nesta idade, dará mais atenção às suas necessidades e condição humana, e terá a coragem de admiti-las, dizendo: não e pronto...Aos sessenta seu humor se tornará um pouco mais irritadiço, ou calmo de vezPorque o tempo não melhora, nem piora, nem lembra nem esquece, não cobra e não pode ser cobradoO tempo só reafirma cada vez mais.....Aos sessenta e cinco sentir-se-á um vencedor por ter sobrevivido a tempestades tropicais, à solidão que às vezes o desolava, aos produtos químicos inconscientes, ao excesso de doces e comida, à decepção com a derrota de seu time, ao eterno jogo humano, ao olhar alheio, ao medo de se expor ao ridículo, e não terá mais medos como dantesAos setenta, você se lamentará ou poderá rir de tudo isso e de si mesmoSe houver pelo menos um pouco de inteligência, optará pelo riso, e verá jovens errando no mundo, sentindo ser eles, como se assistisse um filme...
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Apague as pálpebrasDesligue o mundo, babyFeche a janela do desesperoBrinque no quintal varrido do inconscienteEnlouquece esse tempoE seremos inocentes de novo...
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Ruas
FrasesFasesFebreFezesFazesCelebresFoicesCoicesFindo diaFim daLinhaCozesUm vestidoDe fitaDe chitaLajesCarrosAlgozesChoresLágrimasMolhemCoresRuasDiaNum diaEm que tudoExistia
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Razão Suficiente
Tudo que éO éPorque há razão suficienteTudo que não éNão o éPor falta de razão suficiente
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Palavras
PalavrasPalavras são perigosasPalavras esclarecem, palavras enfurecemPalavras causam a pazPalavras causam a guerraPalavrasEmudecemPalavrasPalavras são poderosasPalavras curamE palavras causam a dorDe onde vem a palavra?
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De manhã eu vivoÀ tarde eu sobrevivoÀ noite eu me desespero
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O Brasil não é memória de PortugalO Brasil beija de língua Portugal.
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