Poesia de Crítica Social sobre o Brasil, o Capitalismo e a Desigualdade

Por Maurício de Oliveira

Sujaram as águas do Ipiranga

Cá entre nósSujaram as águas do Ipiranga...Poluíram suas margens plácidas As fábricas esquizofrênicas e irracionais... A pátria amada mãe gentilNão é dos filhos que pariuÉ de poucosA pátria mãe gentilDa puta que pariuE diga ao verde-louro dessa flâmulaQue somos negros, que somos mulatosQue somos reaisQue somos o povo mestiço, com orgulho...O país é varonil, impávido colossoE o povo, rói o ossoDe um povo heroico o brado retumbanteÉ só um grito ideal e belo, nas lajes pobres de concretoDiversas fomes, a fome é realA desigualdade é realA chantagem do capital é real....No céu da pátria neste instante há mentirasTeu seio de liberdade deixou-se conquistar pelo capital transnacional....E o sol da liberdade? Em raios fúlgidos?Qual nada... somos escravos da incompetência, escravos da corrupçãoSomos escravos do absurdoIdolatradas ilusões....Idolatrados pães e circos e sexos....Deitado eternamente em berço esplendidoBerço esplendido e estéril...Dos filhos deste solo és mãe gentilDe filhos submissosSobre tuas asas de caos do capital feroz e impiedoso...Um golpe no meu peito nacionalSalve salve! A poucocraciaA prostitutocracia infantil absurdaSalve salve! A luxocracia brilhando nas retinas de um povo carenteSalve salve! A absurdocraciaSalve salve! A mão de ferro maquinal em rostos bonitos e televisivos... Terra amada, lembra de meus pés descalços?Terra amada, eu sei teu gosto e teu cheiro até hoje......Terra adoradaOnde resplandece a imagem do cruzeiro?Em quartos luxuosos, ou em barracos?Onde resplandece a imagem do cruzeiro?Nos olhos sedentos de teu povo? Poluíram as margens do IpirangaEnlouqueceu a pátria mãe gentilEmudeceu o brado retumbanteSecaram os seios da liberdadeA imagem do cruzeiro não resplandece, se esqueceImpávido colosso esqueléticoTeu formoso céu risonho e límpido, e poluído, e distante...
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**“Sujaram as águas do Ipiranga”** é uma poesia de crítica social que confronta a imagem idealizada do Brasil com as contradições de sua realidade. Ao reescrever versos e imagens do **Hino Nacional Brasileiro**, o poema transforma símbolos patrióticos em instrumentos de questionamento sobre desigualdade social, capitalismo, corrupção, pobreza, concentração de riqueza e identidade nacional.

Essa utilização da linguagem patriótica para revelar conflitos sociais aproxima o poema de uma longa tradição da **poesia de protesto e da poesia social brasileira**. Desde a crítica política presente em **Gregório de Matos**, passando pelo **Modernismo brasileiro** e por autores como **Carlos Drummond de Andrade**, a literatura brasileira frequentemente utilizou ironia, paródia e ruptura para questionar as estruturas de poder e as contradições do país.

O procedimento também dialoga com a tradição da **sátira**, na qual símbolos, discursos e valores estabelecidos são deformados para expor aquilo que normalmente permanece oculto. Aqui, o “Ipiranga”, a “pátria mãe gentil”, o “brado retumbante” e o “impávido colosso” deixam de representar apenas o Brasil idealizado e passam a confrontar um país marcado pela desigualdade e pela exclusão.

Entre indignação e memória afetiva, a poesia também recupera uma relação íntima com a terra brasileira. O país aparece simultaneamente como pátria amada e como espaço de abandono, revelando o contraste entre o discurso nacional e a experiência cotidiana de grande parte de seu povo.

Assim, **“Sujaram as águas do Ipiranga”** é uma poesia sobre o Brasil, mas também sobre o conflito entre o país imaginado e o país real.

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