Quando eu digo: "o capitalismo gera valor", instantaneamente sou alertado por uma corrente dizendo que o geral, o universal, "o capitalismo", essa coisa generalizante, talvez abstrata, não existe, sendo a penas a realidade o comércio, o trabalho e o mercado de cada lugar individual: o capitalismo no Brasil, na Alemanha etc.
Mas a todo momento eu digo coisas universais e até ideais: Brasil, mercado, capitalismo, vendas, comércio, universidade.
O fato é que quando digo "o capitalismo", o interlocutor entende automaticamente que há um sistema em todos os países, dividido entre patrões e funcionários, entre donos do capital e alienados do capital: vendedores de sua força de trabalho. E mesmo que o interlocutor diga que não entende, pouco importa, por um motivo ou outro é esclarecedor e inteligível, um mecanismo automático no indivíduo que entende: os EUA, a Alemanha, a Colômbia são divididos entre donos dos meios de produção e alienados deles.
Se eu pronuncio: "a universidade", podeis dizer vós que não se pode pegar, tocar ou existir esse universal ou ideal "universidade"; que o que existe apenas são escolas particulares, singulares em cada cidade e pertencente a si mesmas, sendo a concretização daquele universal. Bem, mas ao afirmar isso, também se disse: escola, outro universal. E para explicar cada universal, busca-se o concreto, individual, mas ao buscá-lo, lança mão de palavras que são elas mesmas outros universais, ou ideais. Novamente, ao ouvir a palavra "escola" ou universidade, o interlocutor entende perfeitamente que lá há professores e alunos, que aqueles são pagos, que esses estudam, que há uma hierarquia, que há provas, que há conquista de títulos etc. Não só entende, como o faz muito bem.
Não posso deixar aqui de dizer que esse mecanismo, do universal ou ideal e do concreto, primeiro que seja um mecanismo, devendo ser estudado. Segundo que arraigou-se no homem, ou talvez o próprio aparato do homem seja já preparado para isso a priori. O fato é que não há outro caminho a não ser estudá-lo para descobrirmos a nós mesmos.
Ainda devo dizer que parte ou até o todo disso foi aprendido por mim a partir de Wittgenstein.