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Maurício de Oliveira

Sobrevivente brasileiro.

16-11-1973 Batatais-SP, Brasil

História - Unesp/Franca - 1996

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Teoria do Limite

Fomos educados a acreditar, nessa época, que não existe limite para a investigação humana. Porém, lembremos, em outras eras passadas, o movimento tecnológico era tão pequeno que a sensação era contrária, sem que se acreditasse em uma evolução ou alargamentos dos limites daquele tempo.

Exploramos vastas áreas do universo e da matéria. No universo enxergamos tão longe que temos a expectativa do infinito. E na matéria fomos ao átomo, ao tão pequeno que esperamos estar próximos de um infinito.

Aqui distinguimos duas faces do mesmo infinito: a matemática e a prática.

O infinito matemático é impensável e sempre vai mais além, para o pequeno e para o grande, interminavelmente.

Já o infinito prático é visto em nossa experiência científica e empírica, e está mais próximos de nós, porém, rumo ao inalcançável.

E chegar próximo desse infinito prático talvez seja nosso limite.

O infinito matemático sem dúvida é impensável para nós, e nunca teremos a capacidade de entendê-lo razoavelmente. Bem, talvez um dia daqui a milhões de anos, mas não agora.

Paradoxalmente, o infinito matemático trata de uma de nossas capacidades. Sempre somos capazes de adicionar "mais um" a qualquer coisa que imaginamos, dentro de nossa capacidade de conceber o espaço, matéria e tempo.

Pense em planetas, estrelas, podemos sempre adicionar "mais um", pensando nos planetas e estrelas como os conhecemos dentro de nossos limites, ou de nossa natureza.

Um exemplo disso é a velocidade: se eu penso 300 mil k/s, posso adicionar "mais um" e ficar com 301 mil km/s. Esse é o infinito matemático. Já no infinito prático, 300 mil km/s é o nosso limite. Para além dele voga um espaço tempo que está além de nossa compreensão. Assim, podemos conceber o 301 mil k/s no espaço, matéria e tempo como o conhecemos. Mas no mundo prático não é assim: a realidade é que acima disso o espaço, tempo e matéria deixa de ser o que pensamos deles, estão para além de nossa natureza. Bem, pelos próximos milhares de anos seremos assim limitados, depois disso não podemos especular mais. Só que no momento é essa nossa situação.

Mas mesmo para o infinito prático, talvez ele seja inalcançável para nós, pois está além de nossa compreensão. Ou melhor, talvez a natureza do infimamente pequeno ou muito grande seja algo bem distante da natureza de nós, homens, e sua peculiaridade seja tão diferente da nossa, que vemos então um limite quanto ao que podemos especular com nossas capacidades.

Somos homens, vemos e raciocinamos. Se inventarmos uma câmera filmadora tão pequena quanto a um pedaço de átomo, teremos a expectativa do que afinal veremos nele. E provavelmente não veremos nada. Pois ver é uma capacidade íntima com nossa natureza, mas a natureza do subatômico seja outra, o que acarretará em não vermos nada. Se a matéria for algo como uma onda, então, o que veremos em nossa câmera ultra pequena? Nada, apenas um vazio.

Mas podemos raciocinar, e até especulamos alguma coisa, mas a própria lógica subatômica, sua natureza, seu modo de ser, nos é estranho ao ponto de apenas arranhar por fora o que o mundo subatômico é.

Pelo lado do grande, do macrocosmos, vemos a bilhões e bilhões de anos luz, mas o que vemos nas bordas do que nos chega? Igualmente nada. Nas bordas do universo, dizendo toscamente "bordas", nas distâncias inimagináveis nosso modo de ver é nulo, é estranho e não pode atingir aquelas "bordas" com distâncias inimagináveis. Não temos nem palavras em nosso vocabulário para nomear razoavelmente aquilo que nos é estranho, diferente. mas ainda podemos imaginar ou raciocinar. esse é o nosso talento.

Porém, eu não sei se nosso raciocínio tem algum limite, no entanto, perto do infinito, talvez ele se perca igualmente. Talvez o raciocínio seja infinito apenas em nossa natureza, em seu escopo.

Somos livre no que somos, mas talvez estejamos aprisionados ao que somos. No infinito grande ou pequeno, o que vemos é isso: nada.

Matematicamente minha razão concebe que nunca atingiremos o limite infinito grande ou pequeno. Já na prática, podemos até arranhá-lo levemente, mas não o compreendemos e nada vemos.

Temos comunicação instantânea e informação quase sem limites. Evoluir para onde? temos máquinas que podem fazer quase tudo, e até um cérebro artificial capaz de "pensar" quase tudo. O que esperar além disso? Fomos longe demais e o próximo passo qual será? para ir além precisamos compreender o infinito no grande e no pequeno, coisa que calmamente diz "não, não somos de vocês, aqui é nosso mundo e vocês não podem entrar"

sabemos do paradoxo da tartaruga e de Aquiles, que pela nossa razão, este guerreiro nunca pode alcançar aquele animal. Por mais que Aquiles ande sempre haverá uma distância entre ele e a tartaruga. Bem, isso pela nossa razão.

Se imaginarmos que pela nossa matemática a coisa se dê como pensamos, então, uma distância infinitamente pequena se coloca entre o guerreiro e o animal.

Mas eu sei que Aquiles ultrapassa a tartaruga em um momento e a deixa para trás. O que aconteceu? Nossa razão com seu paradoxo desmoronaram. Naquele momento em que Aquiles está pequena e infinitamente perto da tartaruga acontece algo, que contraria nossa razão e não podemos explicar. E eu posso inferir que nossa concepção de matéria, de distância, de medida, de espaço foram de alguma forma alterada para que haja o que acontece na realidade: a ultrapassagem acontece. Mas, diga, o que acontece naquele momento em que menos de um átomo separa os dois? Nossa razão, nossa experiência, nossa intuição, colapsam. Colapsam para dar vida ao que realmente acontece, a distância é infinitamente pequena e não atende mais ao nosso modo de ver ou de pensar.

Pelo lado do grande, vemos bilhões de anos atrás, mas o limite nunca chega. Por quê? Porque esse limite é tão estranho que novamente nossa razão e modo de ver colapsam para dar vida a algo tão diferente que nem podemos imaginar, nem podemos sonhar ou conjecturar. O infinito prático do grande e do pequeno talvez sejam exatamente isso: nosso limite.

Para o pequeno o espaço colapsa sobre si mesmo, e apesar de muito distante, ou próximos de nós, o que acontece com ele nos afeta diretamente. Fosse pelo nosso raciocínio Aquiles nunca ultrapassaria a tartaruga.

Para o grande o espaço se desintegra. Lá nas barreiras do universo nossa concepção de barreiras, paredes, espaço, tamanho, se desintegram. Mas isso nos afeta, afinal estamos no mundo como ele é, e estamos bem seguindo suas regras e sua verdade, que lá no infinito prático é inalcançável a nós, mas de alguma maneira, novamente, nos afeta.

Quanto ao espaço tempo, à velocidade, uma partícula a 300 mil km/s pelo espaço seria algo meio louco para nossa concepção de espaço tempo. mas não para ele mesmo, o universo e a realidade do espaço tempo a 300 mil km/s. E ela, a luz, com certeza nos afeta.


A virtualização do passado

Podemos encapsular o tempo passado, digamos, 30 anos, em um pensamento. Nesse sentido, estamos virtualizando o passado. Como o digital virtualiza uma realidade, o que temos no presente pode ser considerado uma virtualização do passado, como já disse.

Atribuímos valores, realidade, simplificações, medidas, opiniões, caráter, representação ao que já passou, trazendo para essa tela do presente o que tínhamos antes.

É claro, os bem formados dirão: "mas essa é uma simplificação, o encapsulamento de milhares de coisas a um átimo". E sim, tem razão. Num pensamento, ou em poucos, tomamos um século ou até um milênio. E pior, atribuímos o valor de conceitos do presente a conceitos do passado.

Assim, o amador diz: " a propriedade privada em tal época", com a propriedade privada de hoje na cabeça, como se esta fosse aquela. Ou ainda: "a Idade Média", com três ou quatro conceitos na cabeça designando um milênio. Erro de amadores: transposição mecânica de sua realidade a outra época e simplificação dos acontecimentos, simples assim.

Mas voltando à virtualização que me refiro, temos essa capacidade, de guarda em certa máquina de pensamento todo o passado. Assim como uma máquina atual traz em si o seu mundo físico, real e atual, podemos trazer em nossa cabeça uma representação do que já foi. E vemos o passado, relembramos, simplificamos, rodamo-lo em várias perspectivas diferentes, analisamos um só aspecto, de modo muito correlato a um mecanismo de virtualização, para bem e para mal, ou seja, obtendo esclarecimento ou perdendo esclarecimento do que já se foi, dependendo de como essa tal virtualização é feita.