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Maurício de Oliveira

Sobrevivente brasileiro.

16-11-1973 Batatais-SP, Brasil

História - Unesp/Franca - 1996

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Se não existe o sagrado

Se não existe o sagrado

O lobo não corre na tempestade, uivando no vento


Se não existe o sagrado

O céu não tinge os olhares intrigados na noite


Se não existe o sagrado

O luar não se derrama pelos trigais amarelos


Se não existe o sagrado

O silêncio nada inspira aos amantes


Se não existe o sagrado

Não há o frescor do orvalho sobre o cansaço da ciência


Se não existe o sagrado

A fúria do mar não nos deixa introspectivos


Se não existe o sagrado

O infinito não é misterioso e revela-se a qualquer tolo


Se não existe o sagrado

Não há o desconhecido

E sem ele nada é

Porque nada pode tornar-se.

1
Sábado à noite

Encontros

Labiais....


Desencontros

Normais...


Olhares

Letais...


Seduções

Gestuais...


Carícias...

Animais...


Ilusões

Geniais...


Gestos 

Sinais...


Sentidos

Irracionais...


Momentos

Radicais...


Lábios

Carnais...


Memórias

Sensuais...


Planos

Marginais...

                                                                                           

Noites   

Ancestrais...



1
A noite da consciência

Um cão selvagem corre por minhas veias

Não é daqui, mas de outros tempos

Vaga pelos milênios perdidos em meus sonhos

Salta tantas montanhas

E cruza tantos desertos

Quanto a lua pode ver de seu silêncio


Nos uivos desse cão não há história nenhuma

Há somente a vastidão, o espaço e o universo que se conhece por si mesmo

Mudo na noite intensa, sem que a consciência tenha explodido a admirá-lo


O cão selvagem nunca descansa,

E sente o suor frio em sua pele quente

E luta ferozmente pelo prazer de correr o mundo inteiro selvagem

Se é desafiado a sobreviver,

Se é ameaçado por outros ferozes animais


Não há sonho que ele já não tenha vivido

Não há um parto da natureza que se esconda dele

Não há luta que não tenha travado

Não há território inabitado que ele não conheça

Não há noite que se livre de seu ganido distante

Não há ar glacial ou equatorial que não tenha sido respirado por seus pulmões ofegantes


Um cão selvagem corre por minhas veias

Ele é de outros tempos

E não é violento nem maldoso

Porque em seu tempo não existe a maldade

Não é caridoso ou subserviente

Porque em seu tempo só há seres selvagens como ele


Ninguém sabe de onde ele veio

Ou se um dia irá de minha profundidade

Ele sempre existiu e nunca morrerá

Admirará a lua virgem de qualquer olhar humano, de cima de um monte sagrado

Conhecerá os raios de sol que nunca tocaram um só pensamento

Uivará forte procurando sua companheira selvagem, porque é sua natureza


Não existem dúvidas nem certezas por seus caminhos

Só existe a terra virgem e aberta a seus passos

E a liberdade de não haver nenhum caminho


Certa vez ele viu uma fogueira em volta da qual homens das pedras cismavam

Despreocupados do ontem e do amanhã

Entreolhavam-se tão quietos quanto pode ser a pureza e a inocência da natureza

E o cão selvagem correu em direção a eles

E ao tocá-los, mergulhou na história humana,

E nada lhe foi olvidado

E quase cego pelo que viu

E ansioso, ofegante, extenuado

Encontrou outra fogueira e outros homens ao redor dela

Correu desesperadamente ao seu encontro

E pode retornar a seu tempo

Onde não há tempo nenhum

E salta de uma montanha a outra, forte

E cruza os desertos,

E é tão livre porque desconhece o que seja uma prisão


Numa feita experimentou o descanso

Dormindo num campo de mato orvalhado pela madrugada


Foi ai a única vez que eu quase o vi

Quando perdi a consciência de mim e de tudo ao redor

Mas me transformei nele e pude vagar pela noite desconhecida

E percorri as veias de um homem sem ser um homem

Vi explosões de pensamentos e memórias no horizonte

Sem saber o que significasse isso

E corri livremente sem nenhum cansaço.




Ás vezes quase o vejo.

3
Aos jovens perdidos e guerreiros cansados

Aos soldados perdidos de longe de seus lares

Cravados à espinha pás e pedras

Ao impetuoso atirados

Sem fogueira que os eleve


Por dentro e por fora tímidos

Sentados ao chão imersos

Como tintas à tela árida

De um só traço indefinido desenhados

Ao tear com fios de sangue

À navalha presa nas nuvens

No horizonte vermelho crava-se o azul

Em seus olhos penetrados


Calemos nossa voz e nosso julgamento

Oremos aos seus pais e suas mães

Abrindo o peito distantes

A esses jovens atirados ao mundo


Benzamos a eles suas vontades

De voltar para casa e beijar

Seus pequenos irmãos inocentes.

2
Champagne à memória

Ainda vamos rir juntos de tudo isso... baby

Dos faróis bêbados de minhas mãos inseguras nos teus peitos

Do meu desespero Fred Astaire sapateando no palco

Do lago sereno de teu olhar


Das palavras saltando de paraquedas de nossas bocas                                                                                    

De sonhar um filho, baby

Da violência de tua beleza

De estar perdido no caos de seus braços

De nossas pernas embaraçadas

Do ver-te partir no horizonte enquanto eu agonizava tua despedida


Ainda vamos rir juntos de tudo isso, baby...

Pensando no nada, como os inocentes nas calçadas...

1
Sujaram as águas do Ipiranga

Cá entre nós

Sujaram as águas do Ipiranga...

Poluíram suas margens plácidas

As fábricas esquizofrênicas e irracionais...


A pátria amada mãe gentil

Não é dos filhos que pariu

É de poucos

A pátria mãe gentil

Da puta que pariu


E diga ao verde-louro dessa flâmula

Que somos negros, que somos mulatos

Que somos reais

Que somos o povo mestiço, com orgulho...


O país é varonil, impávido colosso

E o povo, rói o osso


De um povo heroico o brado retumbante

É só um grito ideal e belo, nas lajes pobres de concreto


Diversas fomes, a fome é real

A desigualdade é real

A chantagem do capital é real....


No céu da pátria neste instante há mentiras


Teu seio de liberdade deixou-se conquistar pelo capital transnacional....


E o sol da liberdade? Em raios fúlgidos?

Qual nada... somos escravos da incompetência, escravos da corrupção

Somos escravos do absurdo


Idolatradas ilusões....

Idolatrados pães e circos e sexos....


Deitado eternamente em berço esplendido

Berço esplendido e estéril...


Dos filhos deste solo és mãe gentil

De filhos submissos

Sobre tuas asas de caos do capital feroz e impiedoso...

Um golpe no meu peito nacional


Salve salve! A poucocracia

A prostitutocracia infantil absurda

Salve salve! A luxocracia brilhando nas retinas de um povo carente

Salve salve! A absurdocracia

Salve salve! A mão de ferro maquinal em rostos bonitos e televisivos...

 

Terra amada, lembra de meus pés descalços?

Terra amada, eu sei teu gosto e teu cheiro até hoje......

Terra adorada

Onde resplandece a imagem do cruzeiro?

Em quartos luxuosos, ou em barracos?

Onde resplandece a imagem do cruzeiro?

Nos olhos sedentos de teu povo?

 

Poluíram as margens do Ipiranga

Enlouqueceu a pátria mãe gentil

Emudeceu o brado retumbante

Secaram os seios da liberdade

A imagem do cruzeiro não resplandece, se esquece

Impávido colosso esquelético

Teu formoso céu risonho e límpido, e poluído, e distante...

2
Frenético

Beijo suicida

Espírito da tragédia

Vênus dançante


Hoje não sou o que você quer


Sou o corpo do escravo

O gozo do gênio

Faraó de toalhas pornográficas

Verbo bombástico

Semântica semiótica da loucura

Os nervos do guerreiro no último segundo


Não

Definitivamente não sou o que você quer


Amor sem perdão

Um tiro na noite escura

Átomo ínfimo e infinito

Sustento do universo


Fogo na galáxia

Nudez dos corpos

Vil metal nos dedos das prostitutas

Bizão forte que calca a lama


Não

Hoje não

Hoje não sou o que você quer


Putas e esquizofrênicos

Sou muito mais eles

do que muita coisa que estou vendo!


Insâno

Deus virado no santo

Mais fogo

Olhos no nevoeiro

Silêncio abismante

Tiro no peito

Medo dos marinheiros

Furor da fúria

Risco no céu

Beijo caótico

Solidão das noites


Amanhã é outro dia e

Andarei reto e dócil


Mas dentro de mim há tudo isso.

1
***

Não estou aqui, não estou em lugar nenhum

Não sou agora, não estou em tempo algum

Eu sou apenas a memória que construí de mim mesmo.

1
Língua

O artigo

é fiel amigo do substantivo                                                     


o pronome

é assim com o verbo


adjetivo

alma


o tal do adjunto

eu nunca entendi bem

mas tem lá o seu sentido


o numeral me acumula

quantos beijos já te dei


lembra da velha casamenteira preposição

que o diabo foi vírgula da nossa separação

e depois somente mais algumas palavras

ponto final

fim e recomeço


A língua é do povo

Só do povo

mais de ninguém

e é perfeita


na boca dos humildes ela é ainda mais

perfeitamente imperfeita

e o poeta vai lá e erra

De propósito!

1
Para os adolescentes

Aos sete anos você tinha pelo menos uma cicatriz de infância


Aos dez você já tinha um pequeno amor idealizado, desses de criança


Aos treze uma espinha no rosto era o maior de seus problemas


Aos quinze, um desejo fervoroso era impossível de inexistir

 

Aos vinte você terá algumas paixões perdidas


Aos vinte cinco terá abandonado pelo menos um emprego, terá fracassado em um plano, e se decepcionado com um grande sonho


Aos trinta já haverá muitos desejos abandonados

Aos trinta e cinco tentará viver sua juventude novamente, toda em um só dia


Aos quarenta já terá provado uma sua qualidade, e conhecerá suas forças e fraquezas, e terá também uma cicatriz nos sentimentos, profunda, muito profunda...


Mas aos quarenta é que a mágica acontece: você já terá passado por uma dezena de situações de ridículo, e aceitará sua condição, por entender que não passar por alguns ridículos é impossível.


Aos quarenta e cinco abandonará umas manias e adquirirá outras


Aos cinquenta perdoará as pequenas irresponsabilidades dos jovens, até as engrandecerá, e terá algum orgulho de seus erros

- a juventude é impetuosa -


Aos cinquenta e cinco, se sobreviver à poluição, ao divórcio, às guerras sem fim, aos sempre mesmos e novos planos econômicos, à irritação com a política, no máximo nesta idade, dará mais atenção às suas necessidades e condição humana, e terá a coragem de admiti-las, dizendo: não e pronto...


Aos sessenta seu humor se tornará um pouco mais irritadiço, ou calmo de vez

Porque o tempo não melhora, nem piora, nem lembra nem esquece, não cobra e não pode ser cobrado

O tempo só reafirma cada vez mais.....


Aos sessenta e cinco sentir-se-á um vencedor por ter sobrevivido a tempestades tropicais, à solidão que às vezes o desolava, aos produtos químicos inconscientes, ao excesso de doces e comida, à decepção com a derrota de seu time, ao eterno jogo humano, ao olhar alheio, ao medo de se expor ao ridículo, e não terá mais medos como dantes


Aos setenta, você se lamentará ou poderá rir de tudo isso e de si mesmo


Se houver pelo menos um pouco de inteligência, optará pelo riso, e verá jovens errando no mundo, sentindo ser eles, como se assistisse um filme...

1
***

Apague as pálpebras

Desligue o mundo, baby


Feche a janela do desespero

Brinque no quintal varrido do inconsciente

Enlouquece esse tempo


E seremos inocentes de novo...

1
***

Não sei o que sou

Não sei a que venho ou a que vou

Por isso plagio o pensador

Porque trago a mesma dor no peito

E no fundo o mesmo amor.

1
Ruas

Frases

Fases

Febre

Fezes


Fazes

Celebres


Foices

Coices


Findo dia

Fim da

Linha


Cozes

Um vestido

De fita

De chita


Lajes

Carros

Algozes


Chores

Lágrimas

Molhem

Cores

Ruas

Dia

Num dia

Em que tudo

Existia

1
Razão Suficiente

Tudo que é

O é

Porque há razão suficiente

Tudo que não é

Não o é

Por falta de razão suficiente

1
***

De manhã eu vivo

À tarde eu sobrevivo

À noite eu me desespero

1

O Brasil não é memória de Portugal

O Brasil beija de língua Portugal.

1